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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Alegria e "Alegrias"

Por Nadja do Couto Valle

De quando em vez, eis que somos constrangidos a “ser” felizes, porque convencionou-se que em algumas épocas do ano “temos” que ser alegres e felizes, como no carnaval, por exemplo. Mas que alegria estão nos “impondo”? Esse conceito, como o de felicidade, varia segundo o nível evolutivo de cada um, e forja a escala de valores que determinam cada escolha individual, sobretudo nas horas muito importantes de transição moral da Terra e de seus habitantes, como nos informa o Espírito Manoel Philomeno de Miranda1. Os que estejam na faixa do exclusivo prazer sensível e sensual nessa época encontram, com o “aval social”, encorajamento para entregar-se às “alegrias” de superfície e de “consenso”, próprias desses dias. Mas logo descobrem que tais ilusões trazem decepções, e até tragédias pessoais e coletivas. Leitura obrigatória nessa época é Nas fronteiras da loucura, de Manoel Philomeno de Miranda2.

A alegria foi considerada por muitos fi lósofos como uma das “paixões da alma”, contrapondo-se à tristeza, mas não necessariamente à dor. Para Santo Agostinho trata-se de um estado da alma em que esta se encontra “preenchida”; Descartes disse que a consideração do bem presente suscita em nós a alegria, e a do mal, a tristeza, quando não se trata de um bem ou de mal que não é representado como pertencente a nós3. Já Spinoza defi ne a alegria (laetitia) como “a paixão mediante a qual a mente passa a uma perfeição maior” e a tristeza “a paixão pela qual ela passa a uma perfeição menor”4. Leibniz lembra que a alegria é um estado em que predomina em nós o prazer, pois durante a mais profunda tristeza e em meio às mais amargas angústias se pode experimentar algum prazer, como beber ou escutar música, embora o desprazer predomine; e assim, também em meio às mais agudas dores, o espírito pode encontrar-se em estado de alegria, como acontecia com os mártires.

Filósofos contemporâneos tendem a acompanhar Bergson, que considera a alegria como um anúncio de que a vida alcançou o seu propósito e a sua vitória, e Vladimir Jankélévitch, para quem a vida não tem limites, porque, como o amor, quer sempre ir mais além. Essa postura existencial-espiritualista contrapõe-se às “alegrias” dos dias carnavalescos, que buscam o artifi cialismo e a superfi cialidade dos comportamentos, afastados dos altos sentimentos, descambando para a satisfação da sofreguidão dos instintos. Essa inscrição da alegria no campo da moral provocou alguns debates sobre a função ou ausência de função da alegria na vida moral. Para Max Scheler, a alegria é fonte e necessário movimento concomitante, posto que não é um fim em si mesmo, mas acompanha a vida moral.

Jesus assinalou isso categoricamente, em Seu Evangelho, que é alegria, e afirmou que a Sua alegria é fazer a vontade do Pai6. Em algumas traduções, o uso de “alimento”, em vez de “alegria”, alinha-se no campo da psiconeuroendocrinoimunologia, que está comprovando que esse tipo de alegria engendra saúde. Portanto, sem a consciência do sujeito moral, as alegrias fúteis próprias das solicitações, divertimentos e festas do mundo, como o carnaval, são “alegrias”, fumaça de ilusões que logo se esvai, geralmente em  um lastro de tristeza, depressão, e até de enfermidades  fatais e outros tipos e tragédias.   Kant considera que o agir por amor ao dever e, em consequência, por puro respeito à lei prevaleça sobre qualquer outra consideração, incluindo a felicidade, e, com esta, possivelmente também a alegria. Mas não é preciso eliminar as duas últimas, porque a virtude, a felicidade, a alegria estão incluídas no sumo bem, ainda que a ele subordinadas. Num sentido existencial de alegria pode-se dizer que Kant chegou a admitir uma forte possibilidade de que a obediência à lei por um sujeito moral comporte uma “plenitude” que se parece muito com a verdadeira alegria. Como dito por Neemias: “(...) a alegria do SENHOR é a vossa força.

Muitos argumentam que seguem a fi losofia de Epicuro: o prazer é o supremo bem, mas ele quer dizer que o homem não deve abandonar-se às voluptuosidades fáceis, e que a felicidade é a recompensa da sabedoria, da cultura do espírito e da prática da virtude. Para ele, cabe ao homem admitir os prazeres, favorecer os naturais mas não necessários, e fugir dos que não são naturais nem necessários. Assim cai por terra esse argumento, tão lembrado na época do carnaval e de outras festas mundanas ou tornadas mundanas pela voluptuosidade do homem.

Joanna de Ângelis lembra que o homem não está impedido de “(...) vivenciar as alegrias transitórias das sensações e das emoções de cada momento, (...) [pois] qualquer castração no que diz respeito à busca de satisfações orgânicas e emocionais produz distúrbio nos conteúdos da vida. (...)”8; “A busca do prazer, em razão das necessidades mais imediatas e dos gozos mais fortes, tem sido dirigida para os divertimentos: os alcoólicos, o sexo, o tabaco, quando não as drogas aditivas e perturbadoras. Esses ingredientes levam a diversões variadas, extravagantes, fortes, mas não ao verdadeiro prazer, que pode ser encontrado em uma boa leitura, em uma paisagem repousante, em uma convivência relaxadora, em uma caminhada tranquila, ou em um jogging, em um momento de refl exão, de prece, numa ação de socorro fraternal, em uma recepção no lar proporcionada a alguém querido ou simplesmente a um convidado a quem se deseja distinguir...”9 “Quanto mais divertimentos, mais fugas psicológicas, menos prazeres reais. (...) As pessoas divertidas parecem felizes, mas não o são. (...) [são] afl itos-sorridentes, (...)”10. “No dicionário do pensamento cristão sucesso é vitória sobre si mesmo e sobre as paixões primitivas. (...) O sucesso sobre si mesmo acentua a harmonia e aumenta a alegria do ser, (...)”1

E o Mentor Espiritual Hammed nos lembra e aconselha12: “É muito bom vivenciar a alegria de encontrar o “tesouro escondido no campo da própria alma”13, isto é, reconhecer o Si-mesmo, a mais profunda realidade – a “vontade de Deus”, que sustenta, resguarda e inspira o ser humano a progredir de modo natural e sensato. (...) Quando nos identifi carmos com o Criador, a alegria passará a ser presença marcante em toda e qualquer de nossas atitudes.”

Fonte: http://www.portaliceb.org.br/wordpress/wp-content/uploads/2013/02/RCE_FEV2013.pdf

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Os valores de nossa juventude

por Nadja do Couto Valle* - Pelos Caminhos da Educação, Ano 8 - nº 71 - 15 de abril de 2009



Educação é, a rigor, processo de transmissão de valores. Valor é tudo o que é desejável, e não apenas o que é desejado. Há valores biológicos, econômicos, estéticos, morais, religiosos e assim subsequentemente. Nossas crianças e jovens assimilam os valores que temos verdadeiramente e que determinam nossos atos e palavras, e não aqueles que apenas declaramos. Mas há outras fontes de transmissão de valores, como os grupos que frequentam, a sociedade de modo geral. Por isso às vezes pais se surpreendem, quando constatam que seus filhos agem de uma certa maneira, contrária ao que a família pensa e transmitiu a eles, e isso se deve, muitas vezes, ao fato de que a família e a escola não discutiram com eles os valores presentes em várias situações de vida, inclusive na mídia, nas suas relações interpessoais e assim por diante. De vez em quando é bom revisitarmos o quadro de valores do grupo amplo de nossa juventude, para inclusive cotejarmos com o que temos em casa e na escola. É frequente vermos confirmadas nossas observações. Vejamos se é este o caso, no momento.


Faz algum tempo, a Pesquisa Brazilian Teenage Go Global, da Jaime Troiano Consultoria de Marca identificou os sete principais valores da juventude de hoje:

1. Individualismo. O jovem estabelece inúmeros compromissos tênues, algo difusos, mas está distante de utopias e projetos coletivos. Eles nitidamente não têm a intenção de romper com o sistema, como fizeram seus pais, nem consideram "feio", como estes, consumir ou desejar dinheiro, sucesso econômico. Hoje eles não têm problema em ser ambiciosos na direção de carreiras rentáveis, e adoram conforto! Os pais queriam transformar o mundo, mas seus filhos hoje estão muito contentes com ele, com seus equipamentos, ipods, celulares que fazem praticamente tudo, informática, computador, robótica etc. etc.

2. Hedonismo. Revelado na busca frenética do prazer e de auto-satisfação. A questão suscita várias angulações para análise, o mais evidente sendo o culto ao corpo, mas há outras facetas dessa postura, como por exemplo "garantir" condições para poderem desfrutar/continuar a desfrutar de certas facilidades, entre as quais inclui-se o pagamento de contas, e dentre elas as da academia. Como querem "ficar numa boa", não têm problema em adiar o que para seus pais era quase um dever, já nessa faixa etária, qual seja, o de morar sozinho. Hoje preferem permanecer em casa dos pais, mas aqui também há um inegável viés de natureza econômico-financeira, que deflagrou esse fenômeno em nível mundial: mesmo homens maduros estão preferindo ficar na casa dos pais, e valer-se de uma série de facilidades e confortos que de outra forma seria praticamente impossível usufruírem se tivessem que bancar tudo. Podem até querer isso, sair de casa, morar sozinhos, mas não se "matam" para alcançar esse objetivo, pelo menos a curto - ou até mesmo médio - prazo.

3. Conservadorismo. O indivíduo cresce no sistema e não promove rupturas, mas consome a transgressão dos outros como espetáculo. Alguns estudos revelam que eles fazem planos até mesmo com maior empenho do que seus pais o fizeram, mas a diferença está exatamente nas metas, que são agora mais pessoais, nos interesses que agora não mais sofrem restrições de valores das "tribos" como acontecia na época de seus pais. Outra diferença está na precisão com que traçam suas metas: enquanto as de seus pais eram mais difusas, as dos jovens de hoje são delineadas em cenários, de forma explícita, com projeção de até cinco anos, algo impensável por seus pais nessa faixa etária, como ter filhos, ter casa, onde vão morar e assim por diante, embora nem sempre estejam com tanta pressa para realizar esses planos. A esse propósito, vale relembrar que esse desejo de sair de casa não chega a ser um projeto consistente, eles pensam nisso, mas ... sem pressa! Embora continuem a reclamar dos pais, porque continuam os conflitos de gerações, isso ocorre muito mais pela necessidade de marcar posição, por fazer parte da atitude contraditória e "questionadora" da idade do que por outros motivos. Já vimos que eles não querem mudar o mundo nem sexual nem politicamente, tampouco fazer uma revolução, como sonhavam seus pais nas décadas de 60 e 70. Querem ganhar um bom dinheiro com seu trabalho. Segundo o maior estudo de hábitos e atitudes da população adolescente brasileira, realizado pela empresa de consultoria Research International, revelaram-se conservadores, com relação aos valores familiares, apesar de considerarem os pais "ridículos".

4. A "vida em videoclipe". É tudo muito rápido, são muitas as atividades e preferências, às vezes simultâneas, o que os leva a dedicar pouco tempo a cada uma delas. E assim "pulam" de uma para outra coisa, o que lhes imprime um certo superficialismo e aligeiramento no fazer e no pensar as coisas, inclusive no que diz respeito a certos aspectos da própria vida. É quase uma compulsão frenética, para atender a tudo e a tempo, porque hoje, admitimos, as coisas andam mesmo muito mais rapidamente do que em outros tempos, mesmo recentes. Até adultos estão hoje bastante contingenciados por esses parâmetros de velocidade, que no entanto não deve ser vivida como pressa: as coisas podem ser urgentes, mas não devem ser conduzidas de forma apressada. Admitimos que não é fácil transmitir isso a nossas crianças e jovens, até porque para nós, adultos, muitas vezes isso também se torna difícil.

5. Diluição de hierarquia. Muitos chegam a espantar-se com a facilidade com que os jovens hoje descartam formalidades diante da autoridade estabelecida, fazendo questão de manifestar opiniões e marcar posição. Essa "independentização" tem seu lado positivo, mas é necessário aos professores, pais e educadores de um modo geral estabelecerem limites para a manifestação desses arroubos, sob pena de essa falta de limites descambar para o desrespeito às pessoas e às normas - apesar de eles não desejarem ir contra o sistema. Mais uma incoerência bem própria dessa fase da vida. Isso se torna mais facilmente perceptível, para citarmos apenas dois exemplos, em nível lingüístico, com o uso de palavras e expressões antes não "sancionadas" pelo padrão de relações estabelecidas em sociedade e em família, e também no plano do vestuário - que aliás sempre foi um campo propício para o extravasamento do chamado "espírito rebelde da juventude", ou seja, tratar o corpo como um espaço para a transgressão de modelos de vários tipos e níveis.

6. Culto ao corpo. Práticas esportivas e dança são as atividades mais cotadas para valorizar o corpo como veículo de sedução e como suporte de múltiplas e eventualmente excessivas atividades. Ao mesmo tempo, não exploram a possibilidade de usar o corpo para deslocamentos, comuns para todos, e até mesmo explorar o mundo com mais autonomia. Hoje, por exemplo, muitos adolescentes não sabem sequer tomar um ônibus, quando seus pais, com essa idade, tinham mais condições para tal. É certo que muitas vezes os próprios pais criam essas condições inibidoras para os filhos ou porque querem que tenham muito mais conforto do que eles próprios tiveram - e por isso as crianças andam apenas de carro dos pais ou do transporte escolar, ou por medo de exporem os filhos a perigos que hoje assolam sobretudo as grandes cidades.

7. Capitalismo. O jovem deseja o poder econômico e tem prazer em consumir tudo o que o mundo oferece, sem culpa. Aqui permanece um grande desafio para professores e pais, e educadores de um modo geral, no sentido de disciplinar o desejo, de esclarecer a respeito: a) das relações humanas generosas, que devem perceber que o que sobra para alguns certamente está fazendo falta - e muita - para outros; e b) das implicações que o consumismo desenfreado traz para o meio ambiente, cabendo portanto a tarefa de ajudar essas gerações a criar uma consciência ecológica. A rigor, o esclarecimento cognitivo a esse respeito está em franco progresso, o que é muito bom, mas ainda demanda ações no sentido de executar o que sabemos ser necessário fazer, por já conhecermos as soluções - e isto vale para todos nós. Professores e pais devemos nos empenhar em dar exemplos quanto às relações entre consumismo e degradação do meio ambiente, e ao uso disciplinado dos recursos naturais que, como estamos suficientemente informados, não são inesgotáveis, e isso a partir de nossos hábitos cotidianos, em casa, na sala de aula e na escola, no clube, na cidade - enfim, em toda parte. Como educadores devemos transmitir o cuidado com o meio ambiente como um valor superior, como o propõem o filósofo Edgar Morin, os cientistas, e os ambientalistas de um modo geral. Esse movimento está-se difundindo cada vez mais no mundo inteiro, e nesse particular temos esse suporte para as nossas ações educativas nesse sentido. Nesta época, podemos inclusive aproveitar o 22 de abril, o Dia do Planeta Terra, como poderoso elemento de incentivação nesse processo cada vez mais necessário, e em caráter de urgência. É mais tarde do que pensamos. Vamos em frente, no processo de amorização para com nossa Casa Planetária!

Sempre bom lembrarmos que a escala de valores vai-se alterando à medida que vamos vivendo, agindo e interagindo, e que também com nossas crianças e jovens isso acontece, como aliás todos já devemos ter constatado. De outra maneira, seria inútil o processo de Educação, pois de nada adiantaria a (re)orientação das mentes infanto-juvenis em direção aos valores eternos do Bem, da Moral e do Saber com Sabedoria. Continuemos a alimentar a confiança que de nós merecem nossas crianças e jovens, e acompanhemo-los, com amor e discernimento, nessa fascinante aventura de viver e acolher, internalizar, rever e trabalhar valores em sua escala pessoal, e intransferível.

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Fonte: http://www.educacaomoral.org.br/reconstruir/pelos_%20caminhos_%20educacao_edicao_71_os_valores_de_nossa_juventude.htm



ESTAMOS DE VOLTA!

Olá amigo de ideal espírita, depois de um período, retornamos com nosso estudo de livros espíritas. Agora em novo formato e muito mais inter...